O Céu Está Ficando Pequeno: Entre Asteroides de Raspão e a Armadilha do Lixo Espacial
A gente mal teve tempo de processar a descoberta, mas na próxima segunda-feira, pouco antes das 18h (horário da Costa Leste dos EUA), um asteroide com o tamanho de um ou dois ônibus escolares vai tirar um fino da Terra. Batizada de 2026JH2 pelos astrônomos do Mount Lemmon Survey, no Arizona, que a detectaram no dia 10 de maio, a rocha vai passar a exatos 91.593 quilômetros daqui, segundo a Agência Espacial Europeia. Pode parecer muito, mas em termos astronômicos é logo ali — dá mais ou menos um quarto da distância até a Lua e umas duas vezes e meia a altitude onde ficam ancoradas centenas de satélites geoestacionários, aqueles que garantem a nossa previsão do tempo e os sinais de telecomunicação.
Não há motivo para pânico. O asteroide pertence à classe Apollo, um grupo cujas trajetórias vez ou outra cruzam a nossa órbita, mas a passagem será totalmente segura, conforme atesta o banco de dados do JPL da NASA. Na verdade, a visitação é rotineira. Objetos do tamanho de carros passam entre a Terra e a Lua toda semana, e os do tamanho de ônibus escolares dão as caras na nossa vizinhança várias vezes ao ano. A grande diferença é que só agora estamos desenvolvendo sistemas de rastreio sensíveis o suficiente para enxergar esses visitantes que, até pouquíssimo tempo atrás, simplesmente passavam batidos. Essas pedras geralmente vêm do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, sendo arremessadas para cá por esbarrões cósmicos e pelos puxões gravitacionais do gigante gasoso.
O mistério do tamanho e o espetáculo da luz
O curioso de tudo isso é que, mesmo com os olhos colados na rocha, os astrônomos não sabem o tamanho exato do bicho. A incerteza rola porque, quando um telescópio óptico capta um objeto novo, a única informação que ele consegue extrair é a luminosidade da luz visível. Como explica Patrick Michel, astrofísico e diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, não tem como saber o quanto de luz o objeto absorve ou reflete.
Para a mesma luminosidade, a pedra pode ser enorme e escura, ou pequenininha e super reflexiva. Para cravar as medidas, seria necessário usar observações em infravermelho — onde o brilho é diretamente proporcional ao tamanho —, mas esse tipo de captação a partir da Terra é complexa e raramente usada na fase de descoberta. Baseando-se em suposições, estima-se que o 2026JH2 tenha entre 15 e 30 metros de diâmetro. Se ficar na extremidade menor dessa régua, ele teria a escala do bólido que explodiu sobre Chelyabinsk, na Rússia, em 2013, estilhaçando janelas e deixando mil feridos. Se for da ponta maior, o estrago potencial lembraria o evento de Tunguska, que varreu uma área imensa da floresta siberiana em 1908. Sorte a nossa que o 2026JH2 não vai nem beliscar a nossa atmosfera. Risco de explosão zero.
O verdadeiro perigo já está em órbita
Mas enquanto a gente olha para cima fascinado com as pedras que a natureza joga na nossa direção, ignoramos que o perigo real e imediato na órbita terrestre é uma armadilha que nós mesmos montamos. Um estudo bem chocante divulgado em maio pela Accu escancarou o nível da bagunça: quase metade de todos os objetos artificiais orbitando o nosso planeta é, essencialmente, lixo espacial fora de controle. E para piorar, apenas três países são os grandes responsáveis por alimentar esse caos, colocando em xeque o futuro das viagens espaciais.
A matemática é sombria. Dos 33.269 objetos monitorados pelo Space-Track.org da Força Espacial dos EUA, pelo menos 15.587 são destroços descartados. É espantoso pensar que 47% de tudo que orbita a Terra hoje é entulho perigoso. O inventário dessa sucata inclui ao menos 2.396 carcaças de foguetes — algumas com dezenas de metros de comprimento —, cerca de 12.550 componentes de lançamento exaustos de formatos variados, e 641 objetos que a ciência sequer conseguiu classificar ainda. Somado a isso, temos uma legião de satélites aposentados que só fazem volume.
Uma roleta russa a 32.000 km/h
Estamos falando de toneladas de metal pesado cruzando a órbita a cerca de 20.000 milhas por hora (quase 32.000 km/h). Qualquer engenheiro aeroespacial perde o sono com isso. Em velocidades tão extremas, o design das espaçonaves precisa de uma tolerância absurda a impactos e escudos bem mais robustos. Em 2016, por exemplo, uma simples lasca de tinta de uma fração de milímetro abriu uma fenda no vidro da Estação Espacial Internacional (ISS). A Agência Espacial Europeia alerta que um pedacinho de lixo de 1 centímetro já é suficiente para inutilizar uma nave ou perfurar a blindagem da ISS, enquanto um detrito de 10 centímetros estraçalha um satélite em pedacinhos.
O clima anda tão tenso que os astronautas volta e meia precisam procurar abrigo. A tripulação da ISS passou por um sufoco em 2021, tendo que correr para uma área de segurança quando a estação passou perigosamente perto de uma nuvem de destroços russos. Uma situação parecida aconteceu em novembro, quando uma espaçonave chinesa aparentemente levou uma pancada, deixando três astronautas temporariamente presos no espaço enquanto os danos eram avaliados.
O maior temor dos especialistas atende pelo nome de Síndrome de Kessler. É um cenário de reação em cadeia onde uma colisão gera estilhaços que, por sua vez, causam novas colisões, triturando tudo o que estiver pelo caminho até que a órbita se torne uma zona morta, intransitável para satélites e futuras missões. Desde que os soviéticos lançaram o Sputnik I em 1957, a quantidade de objetos no espaço vem subindo. Mas a curva deu uma guinada vertiginosa a partir de 2015, turbinada pelo boom das empresas espaciais privadas.
O espaço, que antes parecia infinito, está ficando engarrafado. Os destroços se acumulam bem mais rápido do que a nossa capacidade (hoje nula) de limpá-los. A gente sobrevive aos asteroides, mas talvez o grande desafio da humanidade nas estrelas seja sobreviver ao próprio lixo.
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